E, à primeira vista não tenho muitas razões para isso.
Começa pela tarefa de:
_escolher_o_filme
demorada e nunca pacífica. Uns querem comédias, outros ação e outros não querem de todo ver um filme… A discussão é inevitável e sai sempre alguém que perde… Amua e ameaça com esse_filme_eu_não_quero_ver...
Os consensos nunca são fáceis, mas depois de algum – às vezes muito –tempo toma-se uma decisão.
Passa-se à fase seguinte:
_preparar_para_ver_o_filme
É hora de ir comer, fumar um cigarro, ir à casa de banho e claro, tudo isto feito cada coisa por sua vez…
As fases de _escolher_o_filme e _preparar_para_ver_o_filme chegam a demorar uma hora… às vezes desistimos aqui porque já é demasiado tarde. Outras, corajosamente continuamos para a fase seguinte:
_encontrar_lugar_no_sofá
O sofá é grande mas aqui todos também são grandes ou vão a passos largos para isso… São encontrões, pontapés, pisadelas e às vezes alguém sai trilhado porque outro se lembrou que podia esticar-se ao comprido.
Depois de tudo mais ou menos assente passa-se, finalmente para a fase:
_ver_o_filme
Mesmo assim, continuo a gostar de ver filmes com toda a gente ao molhe. Estamos todos juntos (às vezes juntos demais), há o inevitável toque que, para os lados da adolescência começa a ficar cada vez mais raro.
Durante o filme todos partilhamos o momento mas também as conclusões, as expetativas e os entendimentos, sem no entanto falarmos muito.
Cria-se quase uma consciência coletiva envolvida num quadro de proximidade também ela física.
Acho que é por todos estamos juntos a pensar na mesma coisa..
Numa altura em que a inspiração não desce e os prazos apertam, apetece fazer tudo antes mesmo de começar! E é tudo mesmo: arrumar o escritório, consultar extractos de contas, fazer compras… enfim, tudo o que é adiável ou mesmo dispensável.
Escrever… é que nada!
Mas as metas cronológicas estão definidas, o levantamento teórico está feito… até sei sobre o que tenho de escrever!
Sair alguma coisa… é que é outro assunto.
Pois bem, há boas notícias: o meus estado de alma (e não de arte) tem um nome: Procastination!!! Aliás, este é um momento em que estou procastinar!
Este vídeo que a Marta Pinto partilhou comigo num momento de uma verdadeira procastination inconsciente iluminou-me!
Afinal, há nome (e bonito por sinal) para todas aquelas “coisas” que faço antes de começar a escrever. Antes a melhor metáfora que me surgia era a de um cão a deitar-se. Alguns destes animais dão, seguramente umas 5 voltas antes de arranjar uma posição para dormir. Era isso que sentia.
Mas agora não! Encontrei um sentido, uma base sustentada para todas as inutilidades que faço: estou a procastinar!
PS- Procastinando… mas pouco, que o tempo aperta!
Camões é para mim é o poeta maior da Língua Portuguesa. Gosto da forma com que se encontra sempre um extracto dele para todas as ocasiões.
E hoje é um dia especial por dois motivos completamente diferentes.
O primeiro é o aniversário do meu “pimpolho” mais novo: uma década. Ao mesmo tempo que me lembro de tudo o que vivi ao lado dele, também recordo as vezes que estive ausente, muitas vezes ao serviço de uma causa. O idealismo, tão visível num primeiro momento, foi-se diluindo à medida que fui percebendo que na relação dever/haver o equilíbrio era fruto de uma equação de mediatismo. O desencanto foi cavando um fosso cada vez maior entre a praxis e a poesis…
O segundo motivo é porque hoje também é dia de reflexão: o país mudou de líder. Com alguma sorte e dentro do magro espaço de manobra deixado pela Troika, pode-se esperar um quadro reservado de mudança. Certo é, porém, que mudarão os agentes governativos…
Certamente será (in)feliz coincidência, mas hoje, precisamente hoje, e logo hoje, fui “inundada” de pedidos de “amizade” nas redes sociais… Como em tudo na vida, aceitei uns – pelo enorme respeito que tenho pelas pessoas – e recusei outros tantos – por um sentido de oportunidade estranho.
Termino voltando ao início com Camões. Entre os (des)encontros com o Amor Sublime e todas as traições que o poeta viveu, há dias assim:
Que dias há que n'alma me tem posto
um não sei quê, que nasce não sei onde,
vem não sei como, e dói não sei porquê.